Antes de começar a falar da vítima é importante ter presente alguns elementos em relação ao que é a VIOLÊNCIA contra a vítima, porque ambos os termos só fazem sentido se pensados em conjunto, o que também é útil para ajudar a vítima a identificar as fontes do seu sofrimento.

Neste sentido, Violência Doméstica apenas define o Local  e não as Formas  como ocorre, porque a bem ver não existe Uma Violência, mas sim Várias Violências domésticas.

A Violência é uma Relação Violenta, que tem momentos de Agressão Física, mas constrói-se com elementos de abuso físico, sexual e psicológico, é uma relação de dependência e simbiose entre dois elementos. São múltiplas violências que “dispersam a atenção” de quem a sofre e torna difícil o trabalho de as integrar. É necessário ter atenção a elementos “passivos” de violência – parceiros que traem constantemente, estão sempre ausentes, limitam a liberdade da vítima, mesmo sem nunca a agredir, tornam-na dependente financeiramente. Portanto, não é uma questão de classes sociais ou de “boa formação pessoal”, apenas pode haver um refinamento ou um apuramento da forma como o abuso se instala.

E é muito importante ter presente que a Violência Não é um Momento, mas sim Um Processo, que é Continuado, Cíclico e Repetitivo. Não é como um crime momentâneo em que a vítima e o agressor não se conhecem, é uma dinâmica continuada no tempo, entre duas pessoas que partilham intimidade.

Neste sentido, quando o ciclo se instala e se repete já não há uma vítima de um agressor, há uma vítima dela própria, uma cúmplice numa relação triste, oca.

E aqui se torna essencial perceber o que é ser vítima, para permitir que a mulher se ajude, com os recursos que alguém lhe possa disponibilizar.

O conceito de vítima constrói-se, simplificando, em três eixos: O que é ser mulher, O que é o amor e O que é uma relação conjugal. – embora não se deva interpretar estes aspectos simplisticamente.

A vítima tem uma linguagem interna que se começa a construir desde muito cedo na própria vida, o que serve como um modelo dela se relacionar com a própria vida, o que desejar, como desejar, e como lidar com o que obtém. Depois manifesta-se na relação conjugal.

 O conceito que cria de si própria é de um elemento que não sobrevive sem alguém forte a seu lado. Apenas confunde força física, com força de carácter. Quer a vítima, quer o agressor são ambos pessoas extremamente frágeis, a diferença é que normalmente o homem tem um maior poder físico, e faz uso dessa característica para se tentar afirmar como alguém que tem o controlo das coisas, o controlo de uma mulher, que ele próprio também teme perder.

 A vítima cuida, o agressor protege. São estes dois sentimentos que se unem, que se compatibilizam, que estão fragilmente unidos pelo medo, uma cola muito menos forte do que o amor.

A relação estabelece-se então entre alguém que se julga insuficiente, mesmo sem perceber que insuficiência é essa, por isso é que se mantém presa na relação (historiador que dizia que história que não se revisita nem se compreende….), e entrega-se a alguém que não é bem uma pessoa, é uma ideia, um pré-conceito de cuidador, alguém que promete muito, que desperta o desejo, que seduz, e que utiliza a sedução para manipulação.

O problema é que no meio de tudo isto, a vítima não consegue perceber que essa ideia de promessas é uma pessoa que agride, por isso vive-a como se fosse uma pessoa com dois modos distintos de funcionar – ou é uma pessoa extremamente boa que faz promessas e se dedica e se arrepende, ou é uma pessoa odiosa que faz mal – São duas coisas, como se fossem duas pessoas, não é uma pessoa que às vezes seduz pela culpa e que normalmente tem um carácter violento. São sentimentos vividos em diferido. (ou é um dia de sol, ou é um dia de chuva, não há das de sol com chuva)

E se ele promete, então é porque é bom, e a vítima culpa-se: o que será que fiz para o aborrecer? Se conseguir descobrir tudo, então a situação fica controlada, porque já não faço asneiras.

É uma relação infantilizada, de cuidados, onde a partilha é pouca, não há prazer, não há sexualização, embora possa haver sexo como uma demonstração de poder ou de submissão. Portanto, não há afecto, planos, desejos, conversa…

E é difícil sair deste ciclo de sedução, porque o agressor mostra-se sempre culpado, também ele é uma vítima (teve um mau dia, foi sem pensar, tinha bebido demais, não foi por mal).

 A a vítima “cai no teatro”, reconhece no outro a vítima que ela própria é, a sua própria fragilidade “Como sei o que sentes”. E como rejeitar ou negar esse sofrimento que ela também tem? Era quase um suicídio!

 Ademais, quando se tem muito pouco, rejeitar esse pouco parece não deixar alternativa, por isso também é difícil mudar. A atenção está focada no pouquíssimo  de bom que se possa receber, não no que não se recebe de bom, ou o que de mau se recebe.

Sair do ciclo implica assumir as perdas – a vida que se tinha projectado, a desilusão com a outra pessoa, mas, acima de tudo, a dor de entrar em contacto com as próprias feridas, com as próprias fragilidades.É importante acolher esta fragilidade sem culpabilizar a vítima, mas é essencial responsabiliza-la no sentido de lhe mostrar que ela tem a possibilidade de mudar, é uma mudança que está nas mãos dela.

Como ajudar a vítima:

Não atacar o parceiro, defender a fragilidade da vítima e promover o seu poder de mudança!

Como Identificar se está a ser vítima:

1 – Surgem imposições do parceiro que limitam as suas relações sociais.
2 – O cônjuge cria-lhe a sensação de depender dele para sobreviver (a vários níveis).
3 – É frequente haver violência verbal, através de insultos e comentários que ataquem a sua auto-estima.
4 – Evita expressar-se com receio de que o cônjuge se afaste.
5 – Apesar de sofrer agressões, valoriza a ideia de o parceiro, apesar de tudo ser uma boa pessoa.
6 – Permite-se a sofrer agressões físicas com frequência e prende-se ao sentimento de que o cônjuge vai mudar – quem pode mudar e procurar uma alternativa é você.

Nota: Os casos de Violência Doméstica ocorrem tanto em Mulheres como Homens. Atendendo a que as dinâmicas são diferentes, este artigo apenas se debruça sobre a dinâmica de violência sobre o sexo feminino. Oportunamente publicaremos um artigo dedicado à Violência Doméstica para com os Homens.

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