As experiências quotidianas que são vividas com uma carga emocional negativa motivam a procura de escapes que aliviem o mal-estar. Para todos os gostos e feitios, a oferta de meios para atingir o equilíbrio interno constitui um cardápio diversificado, contudo é necessário focar a atenção no objectivo que é oferecido a cada necessidade, afinal de contas, a sede não se sacia com comida! Esta reflexão é particularmente importante porque facilmente se perverte o propósito de uma actividade, e uma maleita vendida como uma cura invoca o ditado “pior a emenda que o soneto”.

Pretendo, no entanto, estender-me apenas no que toca à prática da psicologia  para não arriscar a um desnecessário papel de juízos de valor de algum curandeirismo que por aí é pregado, limitar-me-ei a fazer a distinção entre (re)laxante e terapêutico. O resto do trabalho mental caberá ao leitor.

Uma psicoterapia, sendo um trabalho terapêutico, tem como pressuposto que no final da mesma o paciente terá adquirido autonomia emocional suficiente para, em princípio, não voltar a necessitar de recorrer a qualquer tipo de terapia. Está aqui implícito que uma vez trabalhadas as questões do paciente a necessidade que foi a terapia habilitou-o a viver a vida com prazer. Neste trabalho está também assumido que o paciente terá um papel activo, em que ele e o terapeuta colaboram num percurso percorrido por ambos. O terapeuta não terá que “ensinar o paciente a pescar”, mas sim “ajudar o paciente a aprender a pescar”. Muito embora este enquadramento nem sempre seja respeitado numa psicoterapia, deverão ser estas linhas que permitirão o respeito pelo paciente.

A (psico)terapia relaxante, ao que nomeio (re)laxante, como a própria pontuação sugere, implica um processo em que o cliente é permitido por parte do terapeuta a assumir uma postura passiva em que se limita a evacuar verbalmente um rol de experiências desagradáveis, ficando desprovido de qualquer possibilidade de pensar e maturar os seus recursos internos para que no futuro se torne autónomo. Este será um “efeito comprimido”, em que se actua apenas em consequências-sintoma, ignorando as verdadeiras causas de provocam mal-estar. Este processo é particularmente vantajoso ao eventual terapeuta que se desmarca do seu papel profissional de entrar em contacto com o sofrimento do paciente e, eventualmente que seja despertado o seu próprio sofrimento.  Assim sendo, um processo que deveria ser um caminho para a separação é uma receita para a simbiose.

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