Guys and Dolls é um documentário realizado pela BBC que aborda a vida de quatro homens que decidiram assumir um “relacionamento” com bonecas – modelos de mulheres, em tamanho real. Todos argumentam razões diferentes para a escolha, mas a conclusão é comum entre eles: as mulheres de borracha são melhores companheiras do que as mulheres de carne e osso.

Postas as coisas nestes termos, questiono(-me):

O que motiva estes homens na escolha de uma companheira (…boneca)?

Lembro-me de ouvir, na minha infância, alguém invocar Goethe durante um discurso moralista sobre o mau comportamento de alguém – «Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!», ao que mais tarde depreendi que o locutor estava a acusar o visado de ser igual às “más companhias com quem andava”. Na altura senti-me ambivalente em relação àquela ideia; o primeiro impacto foi de susto porque achei aterrador alguém ter o poder de ler o interior de pessoas, simplesmente analisando as ditas companhias. Com o passar do tempo interpretei aquela citação de outra perspetiva – as companhias escolhem-se por terem características que, por razões várias, desempenham algum papel na vida de quem as escolhe. Por exemplo, um rapaz introvertido pode querer ser amigo de um rapaz extrovertido porque acha que vai ser mais fácil relacionar-se com outras pessoas com a ajuda do amigo – uma escolha funcional -, ou uma rapariga pode desejar ser amiga de outra porque têm gostos em comum e o tempo que vão passar juntas vai ser divertido – uma escolha afectiva.

O que difere entre uma escolha funcional e uma afetiva? Resumidamente, no primeiro caso a escolha é feita como uma compensação ou disfarce de sentimentos de inferioridade e insegurança em relação ao próprio, no segundo caso é uma escolha feita por admiração a características do outro – temos uma escolha egocêntica VS altruista.

Peguemos nos argumentos utilizados no documentário (para simplificar, e por conveniência, vou pegar no 1º e no 3º!)

– Davecat –
Quando Davecat inicia o discurso sobre a sua vida, com a boneca, começa por falar… do seu pai. Mais concretamente, da desilusão que é para o seu pai ter um filho que não namora com uma mulher “normal”, e da dor que é viver com a pessoa que acha que a sua relação é uma desilusão. Aparentemente ele considera-se falhado enquanto homem aos olhos pai, o que não abona a seu favor no que toca à tarefa de conquistar mulheres. Além desta mancha na sua autoestima, a relação que estabelece com a boneca parece ser pouco altruísta, porque o que ele verdadeiramente valoriza na mulher (e neste caso, na boneca) é a sua “estabilidade”, a função de “estar sempre lá”. Entretém-se a cuidá-la e a olhá-la, como um rapazinho que cuida de uma coisinha anímica com forma de gente, como se ela só o desejasse exclusivamente, ao seu Adão.
É uma sexualidade infantil, em que a fonte de prazer está fixada no olhar e no cuidar (como quando se é bebé), ao contrário de uma sexualidade adulta, em que o prazer é vivido na relação com o corpo na sua totalidade e na relação com a personalidade da pessoa, e não apenas nas funções narcísicas que ela desempenha – utilizam a “namorada” exclusivamente com o objectivo de compensar as próprias inseguranças.

– Gordon –
Há um aspeto que se repete como em Davecat, ele começa a falar de si pela relação com o pai, que neste caso o abandonou em criança, deixando-o aos cuidados a mãe. Gordon agarrou-se a esse acontecimento para definir todas as relações: são temporárias. Neste sentido, despreza todas as relações que teve e que poderia vir a ter – descarrega na ideia de ter uma relação toda a raiva que a primeira perda (do pai) lhe causou.
Por outro lado, diz que a mãe é que era boa porque lhe dava prendas. De facto ele tem um arsenal de man-toys invejável (que bem representam a raiva que o enche!), mas aparentemente foi a única coisa que recebeu – coisas –, porque foi apenas a isso que aprendeu a afeiçoar-se: coisas. Como a uma boneca, que trata como um objeto utilitário: a satisfação de instintos, em vez de afetos humanos.

Estes dois casos não explicam todas as razões que podem levar alguém a estabelecer uma “relação” com uma boneca, servem contudo para mostrar que quando alguém escolhe um(a) parceiro(a) pode fazê-lo por amor pela pessoa, ou por medos e inseguranças que podem facilmente ser controlados na relação com um objeto desalmado.

As primeiras relações que o ser humano tem (durante a infância) constituem uma matriz que está na base do desenvolvimento ao longo do tempo. Se são relações que apoiam as crianças, cuidam e dão um ambiente seguro, estas sentem segurança suficiente para utilizar as suas capacidades para lutar pelos desejos; quando as relações são marcadas pela falta de reconhecimento de capacidades e de apoio para desenvolvê-las, quando não são um exemplo construtivo, os medos tornam-se os elementos que guiam a vida e a tendência é a procurar formas de camuflar ou fugir da fragilidade interna.

Em vez de crescer com pessoas,  brinca-se com bonecas…

2 Comments

  1. Nicolau Frederico 28 de April, 2015 at 8:21 AM

    Excelente comentário! Perfeita compreensão e exposição da situação dos dois homens escolhidos como exemplo!

    Recomendo (se você já não assistiu!) Lars and the Real Girl, de 2007.É um caso inteiramente distinto dos homens desse documentário, porque a boneca serve ao protagonista para sair de seu isolamento de contato humano ao invés de encasulá-lo ainda mais.

    Reply
    1. Nuno C Sousa 3 de May, 2015 at 8:35 AM

      Caro Nicolau,

      Agradeço o comentário e a sugestão.

      Entretanto tive oportunidade de rever o filme. De facto é um caso distinto, com uma resolução muito enternecedora, graças à intervenção da médica, da família e de uma comunidade. Temo, no entanto, que este tipo de situações seja muito raro fora do cinema!

      Cordialmente,
      Nuno C Sousa

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