Como reacção ao atentado de 9 de Janeiro ao jornal satírico Charlie Hebdo têm, naturalmente, surgido na opinião pública diversos olhares sobre as causas e consequências do sucedido.

Não querendo entrar num jogo de opiniões pessoais, há um exercício que me parece particularmente relevante como base de partida para a análise do caso, que é diferenciar o trabalho do ‘Jornal Charlie Hebdo’ do ‘movimento Je Suis Charlie’. Um é o jornal satírico, o outro é um movimento pela liberdade de expressão inspirado por um acto terrorista contra o primeiro.

Levanto este ponto porque tenho-me deparado com várias opiniões que questionam o quão responsável é o jornal pelo atentado de que foi alvo, raciocínio que não me parece adequado às circunstâncias. No mesmo raciocínio ressalvo dois outros elementos a ter em consideração. Um, que está  inerente à liberdade de expressão, é a liberdade da diferença individual que se manifesta através das várias formas de expressão livre. O segundo, é o atentado ao direito humano da vida, supostamente garantido numa sociedade civilizada. Não foi só a liberdade de expressão a ser violada, mas todo um conceito de sociedade civilizada e segura, que deixou os cidadãos de Paris com receio de circular livremente na rua.

Diferenças essenciais entre as vítimas e os agressores

De um lado temos um jornal que produz conteúdos satíricos, que poderão ser tão ofensivos quanto maior a dificuldade de relativização do leitor que o consume. Não é adequado generalizar a conclusão de que o jornal insulta toda uma crença Muçulmana porque não foram Muçulmanos a atacar o jornal, mas sim terroristas que pervertem princípios religiosos para justificar as próprias intenções.

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Circularam imensos comentários que, não pretendendo defender os assassinos, se traduziam em ideias como “meteram-se a jeito porque provocaram as pessoas erradas”. Esta conclusão parece-me de todo desprovida de lógica porque ninguém se põe a jeito de ser castigado/assassinado com base em princípios radicais. No limite, o indivíduo que ofende põe-se a jeito de ser julgado pela lei, ou, por exemplo, no caso de um jornal, de ser censurado pelos consumidores que deixariam de comprar o jornal.[pullquote]a ofensa só pode ser julgada pela lei e nunca vingada pelo dogma[/pullquote]

Concluir que os cartoonistas se “meteram a jeito” valida a lógica do terrorista, mesmo que não se concorde com ela.

Je Suis Charlie Hebdo!

Reagir a um evento não torna a pessoa parte dele.

Estar empático com as vítimas de um assassinato não implica que a pessoa, no fundo, tenha um carácter tolerante com as diferenças dos outros, seja nos pequenos gostos pessoais, seja nas grandes crenças.

Ser Charlie Hebdo é aceitar a diferença individual e as suas várias formas de expressão livre. [pullquote]Ser Charlie Hebdo é aceitar a diferença individual e as suas várias formas de expressão livre.[/pullquote]

A liberdade de expressão não se resume à liberdade de exprimir opinião, mas da tolerância a quem adopta uma postura de vida diferente.

A ofensa não se assassina, ignora-se. Ao o ataque não se retalia, lida-se com recurso aos meios judiciais.

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