Desde pequenos que somos ensinados a ver o mundo a preto e branco, certo ou errado e a ignorarmos outras tonalidades. Tendemos a rejeitar as pessoas “más” e a gostar de pessoas “boas”. Esta postura é tão intuitiva que uma das grandes dificuldades é saber lidar com pessoas “cinzentas”. Não apenas porque tanto são capazes de nos fazer sentir o melhor e o pior, mas também porque não conseguimos perceber se as suas atitudes derivam de má intenção ou por incapacidade de agir de outro modo.

Se olharmos para os cinzentos como brancos, corremos o risco de desculpar todas as atitudes e de rejeitar a realidade de que alguém de quem gostamos é um lobo disfarçado de cordeiro. Por outro lado, se vemos os cinzentos como pretos, podemos inviabilizar uma relação que se pode tornar melhor e rejeitar essa pessoa.

Como resolver este dilema? A chave está em não atribuir aos “cinzentos” uma tonalidade que não têm e na comunicação.

São relações que exigem um maior esforço de compreensão da nossa parte na interpretação das atitudes do outro e, por isso, se torna necessário transmitirmos o que nos incomoda. A comunicação resolve tudo? Vamos por partes: se ao partilharmos o que sentimos e do outro lado houver disponibilidade e um esforço para a mudança, então estamos no caminho para a construção de uma relação melhor. Tenha atenção à gestão de expectativas neste processo porque uma relação melhor não é o mesmo que perfeita, mas sim o melhor possível tendo em conta as diferenças e até onde cada um é capaz de melhorar.

No outro cenário, em que não há sensibilidade às preocupações manifestadas, é preciso tomar a decisão do investimento emocional que estamos dispostos a fazer. Se há relações que podemos terminar quando percebemos que o desequilíbrio não se vai alterar, também há relações de proximidade e dependência que não se consegue abandonar e, nesse caso, precisam ser geridas. Esta gestão passa por limitar os contactos ao mínimo necessário e, muito importante, pela imposição de limites. Por exemplo, ter atenção ao acesso que é dado à intimidade, repensar o que se desculpa na atitude do outro e saber dizer e manter o “não” quando necessário.

Até termos capacidade de nos afastar de cinzentos muito próximos de preto, importa não fantasiar que algum dia esta será uma relação saudável, de respeito mútuo e ganhos emocionais, mas interiorizar que será uma relação condicionada a ser o mal menor.

Ao contrário do que aprendemos nos contos infantis o “bem” nem sempre vence o “mal” e muito dificilmente as pessoas trazem dentro de si uma só tonalidade, incluindo você!

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