Brinquedos Bélicos Fazem As Crianças Agressivas?

No meu dia-a-dia clínico deparo-me constantemente com pais que desabafam a preocupação dos filhos quererem brincar com objectos bélicos – pistolas, facas, espadas, etc… – (principalmente quando são crianças na primeira/segunda infância) e jogos violentos no computador (quando entram na (pré)adolescência). “Nós não somos a favor dessas coisas”, “não queremos que ele se torne uma criança violenta”, são expressões recorrentes. Aqui utilizo o sujeito no masculino, mas também acontece com meninas, embora a agressividade delas tenda a manifestar-se por outros meios lúdicos (uma boneca má que está sempre a ralhar com outra boneca, por exemplo).

 

A preocupação paterna com o carácter dos filhos é natural e saudável, mas pode ser mais perigosa do que os brinquedos com que os filhos brincam “aos maus”!

 

– A Brincadeira Das Crianças
Ao contrário dos adultos, as crianças (pré-adolescentes) percepcionam o mundo no registo da fantasia, do mágico e do imaginário: inventam jogos, transformam objectos noutras coisas, fazem de conta que são outras pessoas, etc.
Este processo é essencial para o desenvolvimento psicológico porque enquanto as crianças se sentem protegidas no seio familiar permitem-se ensaiar para quando forem grandes e a vida for “a sério”. É a brincar que percebem os prós e contras da realidade sem o risco de sofrer consequências, luxo  que os adultos já não dispõem. Quer isto dizer que quando as crianças estão a brincar, não estão a processar a realidade como os adultos que a interpretam de forma literal: para um adulto, um pau é um pau, para uma criança pode ser um chapéu de chuva ou outra coisa qualquer. Se o adulto quer brincar com a criança, tem que fantasiar com ela!

Este processo de faz-de-conta é necessário para a percepção e interiorização de dois conceitos essenciais:

1) pensar é diferente de agir;

2) fazer de conta é diferente de ser.

O faz-de-conta infantil é um palco onde a criança é actor, e precisa que os pais sejam encenadores, isto é, que o pensamento adulto as ajude a compreender os impulsos e acções: se a criança exibe uma espada grande, o adulto pode responder-lhe “ah, tu és muito forte e não tens medo dos monstros!”.

 

– Quando a fantasia se mistura com a realidade

O aparelho cognitivo das crianças é incompleto dado que não nascem com as capacidades que se adquirem com a experiência de vida. A solução natural é utilizarem o pensamento dos adultos para processar as suas vivências infantis: “se o meu pai/mãe pensa assim/diz aquilo, então é assim que as coisas são.

Retomando a preocupação dos pais relativamente à brincadeira com armas, se a ideia transmitida é a de que “brincar é igual a fazer coisas a sério”, então o resultado mais provável é que a criança comece a interpretar as suas fantasias como desejos reais: perde-se a distinção entre pensar e agir, entre fazer de conta e ser – pensar já não é pensar.

Se a criança não pode brincar às guerras porque isso é igual a efectivamente ser destrutivo, então como poderá eventualmente sentir que está zangada com os pais, pessoas de quem gosta e de quem depende?

Este resultado é extremamente perturbador para as crianças porque desperta o medo de sentir e de pensar sobre os sentimentos.

Se repararmos, as brincadeiras bélicas têm um padrão que se repete: imaginam que são os bons a matar os maus, depois cuidam do mau para que ele ressuscite e voltam ao início da brincadeira… A criança não está efectivamente a querer ser um assassino, está a tentar perceber se exteriorizar a agressividade é mortífero, ou se tem remédio. É neste processo que o papel dos pais pode ser construtivo: se os pais toleram e eventualmente participam neste jogo, a criança percebe que os pais aceitam e não têm medo dos sentimento mais agressivos da criança. Se no jogo a zanga não é fatal, então na vida real também não será prejudicial para a relação de amor entre os pais e filhos.

Das primeiras vezes que tive contacto com estas preocupações por parte dos pais perguntei-me: O que levará as pessoas, ainda que de modo inconsciente, a evitar os sentimentos agressivos dos filhos, que são naturais e saudáveis?

Embora não haja uma causa única, tenho verificado que muitos pais culpabilizam-se por acharem que não estão a ser bons cuidadores dos filhos. Imaginar que os filhos podem estar zangados com eles é uma dor difícil de aguentar e gera-se o medo inconsciente da agressividade dos filhos. Consequentemente também se tornam pessoas ansiosas quando tentam acalmar os medos dos filhos, transmitindo o sentimento de insegurança aos mais pequenos. Este fantasma de ser mau-pai/mãe pode advir de causas como trabalhos que ocupam muito tempo, dificuldades financeiras em dar aos filhos determinadas coisas que eles gostariam de ter, etc.

Costumo dizer aos pais que não é preciso ser um(a) super pai(mãe) para as crianças crescerem saudáveis, apenas precisam de ser naturais e darem-se às crianças dentro do que é possível consoante o registo de vida de cada um. Se não se podem brincar com o filho todos os dias à noite, pelo menos que nos dias em que têm tempo então que o façam de corpo e coração. Se percebem que a criança está triste ou zangada com alguma coisa tentem conversar com a criança, perceber o que ela sente para que possam ajustar-se como for possível – como quem brinca às guerras, mas sem balas.

Se a criança sentir que os pais estão do lado dela, irá tolerar melhor a frustração de não ter tudo como gostaria (o que também é um conceito importante para o resto da vida).

Uma criança que tenha espaço na relação com os adultos para transformar as suas frustrações-balas através do diálogo nunca sentirá necessidade de passar ao uso de armas reais!

2 Comments

  1. Maria Ionara 9 de October, 2014 at 1:12 AM

    Moro em um condomínio onde os pré adolescentes brincam com armas e os pais nem tem noção do que acontece!!

    Reply
    1. Nuno C Sousa 22 de October, 2014 at 11:49 AM

      Obrigado pelo seu comentário Maria,

      Nesse caso diria que já não está em causa uma verdadeira brincadeira porque o carácter da fantasia já não existe, dado que exsistem armas reais. Este caso já seria merecedor de uma atenção especial.

      Cordialmente,
      Nuno C Sousa

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